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O insuportável som do silêncio quer me fazer companhia nesta madrugada solitária e quente, quando a vizinhança parece estar seguindo as orientações do planeta e amarra o bode em casa.

Peguei “O dilema do porco-espinho: Como encarar a solidão”, de Leandro Karnal. A sinopse conta que a partir de referências de filósofos e da própria Bíblia, de fatos históricos e de romances, Karnal faz uma reflexão sobre a natureza de viver só - por pouco ou muito tempo, estando ou não acompanhado. Apresenta como a solidão é encarada no cinema, na literatura, na música, nas artes. Mostra que ela pode ser iluminadora e como Deus se revela aos solitários. O mesmo Deus que, segundo Gêneses, teria dito: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e corresponda.” E expõe como se desenvolveu a tradição judaico-cristã da solidão. Em O dilema do porco-espinho, Karnal viaja pela modernidade líquida e analisa a solidão no mundo virtual e o isolamento.

O melhor filme de Truffaut sobre a solidão é “O Homem que amava as mulheres”. François Truffaut (1932-1984), um gênio que deixou nesse suburbano planetinha, moralista e cafajeste, uma montanha de obras primas. Esse filme está perdido por aí, nesses sites de cinema e dá para baixar.

É a história de Bertrand Morane, um cara esquisitão de meia idade, radicalmente solitário que tem obsessão por mulheres. Bertrand conquista, conquista, conquista compulsivamente mas vive afogado num oceano de sofreguidão, angústia, culpa e solidão.

Bertrand é interpretado pelo polonês Charles Denner, morto em 1995 com 67 anos. Truffaut subiu com apenas 52. Capaz de atirar de propósito o carro num poste e andar 300 quilômetros para conquistar uma mulher, Bertrand é neurótico radical sim, mas traz os traços muito comuns dos homens de meia idade que vivem saudavelmente entre aspas, nadando contra as correntes da sociedade hipócrita que formam as classes média e rica.

Um dia desses vi uma malabarista de uns 20 e poucos anos num sinal de trânsito, batizado por São Paulo de semáforo. Shortinho enterrado, braços levemente tatuados, pearcing no nariz, muito gostosa, em troca de uns trocados dos motoristas ela jogava três bastões de fogo para cima, para baixo, entre as virilhas e os manipulava com a intimidade das cortesãs do século XIX manuseando um pênis encerado.

Se Bertrand Morane estivesse ali daria um jeito de conseguir nome, telefone, endereço, CPF da malabarista, para caçá-la, abatê-la e depois ser mais uma vez acachapado pela ansiedade infinita dos infelizes solitários e seus teoremas existenciais indecifráveis e irrealizáveis.

Como Nelson Rodrigues, Bertrand Morane era um doente, mas faz falta. O Bertrand que nos habita, asfixiado pelo torpe moralismo gerenciado pelos carrascos da liberdade comezinha, caiu em desuso no crepúsculo do século 20 quando o lema “é permitido proibir” ganhou as calçadas, avenidas, viadutos, lojas de calcinhas e sutiãs, bordéis.

O auto-batizado “garanhão” de Bertrand, na verdade um paquerador radical, inconsequente e (repito) sofredor até a medula hoje é rotulado de “assediador” “impertinente”, “pervertido”, “tarado”, digno de ser “extirpado do meio social em nome da moral e dos bons costumes”.

A mãe de Bertrand era prostituta e quando ele era adolescente a via desfilando de calcinha e sutiã pela casa, causando uma dor atroz. Mais: ele abriu suas gavetas e leu sua troca de correspondências com os machos, dezenas deles, e sempre o mandava levar cartas (para eles) ao correio. Bertrand as jogava fora.

Não sei onde encontrar “O Homem que amava as mulheres”, mas vale a pena correr atrás via Google, Bing e similares porque é preciso deixar claro para todo mundo que houve, sim, uma era onde a vida era mostrada, exibida, arreganhada sem pudores, censores, réguas, compassos.

A não-libidinagem explícita.