Por João Victor Valim

Uma história do século passado, vivida lá em 1909, porém tão presente, tão atual e ainda viva nos dias de hoje. Assim é “A Cor Púrpura – O Musical”, livro de Alice Walker, escrito em 1982 (que faturou o Pulitzer, um dos maiores prêmios mundiais da literatura) que ganhou uma versão para cinema assinada por Steven Spielberg em 1986 e os palcos da Broadway em 2015. Antes tarde do que nunca, acaba de estrear na Cidade das Artes, no Rio, a primeira montagem brasileira adaptada do romance.

Emoções dão o tom ao espetáculo, que vai muito além de preconceito racial ou machismo. A trama gira em torno da vida de Celie e costura seus diversos dilemas existenciais – questões de sua identidade como mulher negra, abusos sofridos pelo pai e pelo marido, e sua luta por liberdade. Caminhos tortuosos fazem parte da saga da protagonista, que busca força no amor e na fé para seguir em frente.

Falar mais do que isso é spoiler. Importante é que, os personagens falam a nossa língua, com vocabulário fácil e popular, a peça prende a atenção do público. São aproximadamente três horas de duração que fluem de forma leve mesmo com temas tão indigestos - preconceito, abusos e agressão à mulher.

Fotos de Carlos Alberto Costa/Divulgação

Leticia Soares vive a protagonista Celie: presença segura em palco e timbre marcante

Nem tudo é drama. Há também personagens carismáticos que costuram doses de humor em contraponto ao enredo denso. O cenário também impressiona, assinado por Natalia Lana. Uma estrutura circular móvel é constantemente alterada durante a cena pelos próprios atores, gerando as mudanças de ambientes - pouco comum nos palcos brasileiros. 

A atriz Letícia Soares, protagonista que interpreta Celie, canta muito. Seu timbre bate fundo e surpreende o público diversas vezes. Em entrevista para o Correio da Manhã, a atriz comentou a rotina agitada que começou a assumir pelo fato de morar em São Paulo e do cuidado extra com a garganta, muito exigida durante as apresentações: 

“É muito desafiante, todo dia eu acho que não vou conseguir, é uma responsabilidade muito bizarra. A insegurança é diária, mas eu sou do tipo de pessoa que procuro ver o que posso fazer para melhorar isso, aula de canto, atendimento com fono etc”, revela Letícia.

E sobre a parte que mais lhe emociona?

“A parte que a Nettie (irmã de Celie) vai embora é sempre dificílima, porque é uma cena com uma carga dramática muito grande, difícil de fazer e com umas músicas muito difíceis também. Então ou você se deixa levar pela emoção ou pensa na nota em que cantar... e cada vez sai de um jeito, como é um espetáculo ao vivo, então a voz vem daquilo que a emoção traz, a cada vez eu acho que sai diferente.”

A banda composta por oito músicos também tem importante papel nos 32 números musicais, em parceria com os 18 atores literalmente afinados. As músicas, bem adaptadas por Tony Lucchesi, diretor musical, embalam o espetáculo com louvor.

Traduzida pelo jornalista e escritor Arthur Xexéo e dirigida por Tadeu Aguiar, a peça está em cartaz no Rio até 3 de novembro. No elenco estão nomes como Letícia Soares, Flavia Santana, Sergio Menezes e Lilian Valeska, entre outros, além da participação especial de Jorge Maya.