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Por Giuliana Miranda (Folhapress)

O atual premiê português, o socialista António Costa, permanece na liderança do executivo após uma vitória consistente de seu partido nas eleições de domingo, com teve 36,7% dos votos, chegando aos 106 deputados (20 a mais do que em 2015).

O bom desempenho dá um uma ampla margem de manobra ao primeiro-ministro, que pode tentar uma reedição da “geringonça” -aliança com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista que deu sustentação a seus quatro primeiros anos de governo-, além de conversas com forças políticas emergentes, como o PAN (Pessoas-Animais-Natureza).

Pela primeira vez desde a redemocratização, Portugal terá um partido da direita populista no Parlamento: o recém-criado Chega, que conseguiu eleger um deputado no domingo (6). A legenda defende ideias como a castração química de pedófilos, a prisão perpétua e a redução drástica do tamanho da máquina pública.

- Pela primeira vez em 45 anos, o país não teve medo de votar num partido verdadeiramente de direita - disse o presidente do partido e deputado eleito, André Ventura, logo após o anúncio do resultado. - Garanto-vos que, daqui a oito anos, seremos o maior partido de Portugal.

Presidente nacional do Chega, Ventura é professor de direito e comentarista esportivo. As ideias e o discurso duro em relação à segurança pública renderam a ele o apelido de “Bolsonaro português”.

Homem de declarações polêmicas - chegou a afirmar que pessoas da etnia cigana “vivem quase que exclusivamente de subsídios do Estado”, Ventura ganhou notoriedade ao comentar na televisão os jogos de seu clube, o Benfica, que tem a maior torcida do país.

Ele não conseguiu se eleger eurodeputado em maio, nas últimas eleições para o Parlamento Europeu. Teve mais sorte nestas legislativas, onde o Chega conseguiu 1,3% dos votos dos portugueses.

A confirmação de sua eleição veio apenas no finzinho da apuração, comprovando a previsão de algumas pesquisas, que, nas últimas duas semanas, indicavam que o Chega poderia ter seu primeiro representante parlamentar.

Na avaliação de Paula Espírito Santo, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, ainda é prematuro para falar nos efeitos de longo prazo da presença de um partido populista na Assembleia da República:

- Este é um fenômeno muito novo em Portugal. Pode ser que venha a ter um reforço em nível de votação no futuro, mas parece que, por enquanto, ele não tem bases suficientes para vingar.

Ela destaca ainda o que considera ser o maior apelo da legenda.

- Como todos os partidos populistas, o Chega é de respostas rápidas e imediatas para problemas que são muito complexos, como a corrupção.

A próxima legislatura terá o parlamento com o maior número de partidos e, também, a maior presença feminina. Serão pelo menos 89 deputadas - até o encerramento desta reportagem, faltavam definir quatro vagas para a Assembleia, destinadas aos portugueses que vivem no exterior - um aumento de 14 em relação a 2015.

Além do Chega, outros dois partidos estrearão na Assembleia: o Livre e o Iniciativa Liberal, com um deputado cada.

Prometendo oposição ao premiê socialista António Costa, o economista João Cotrim de Figueiredo será o representante do Iniciativa Liberal no Parlamento.

Já pelo Livre, partido de esquerda, a historiadora Joacine Moreira será a representante parlamentar. Nascida na GuinéBissau, Joacine mudou-se para Portugal aos 8 anos. Com longa militância contra o racismo, foi a primeira negra a ser a número um da lista de um partido nas eleições de Portugal. Alvo de comentários racistas nas redes sociais, também sofre com fake news. 

Além dela, outras duas mulheres negras foram eleitas para o Parlamento português: Beatriz Gomes Dias, pelo Bloco de Esquerda, e Romualda Fernandes, pelo Partido Socialista.

Nascida no Senegal, com origens na Guiné-Bissau, Beatriz é bióloga e uma das fundadoras da ONG SOS Racismo. Também de família guineense, Romualda Fernandes é jurista, especialista em direito internacional e das migrações.