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Por Júlia Barbon (Folhapress)

A tragédia no Hospital Badim, na Tijuca, que provocou a morte de 14 pacientes idosos há duas semanas, serve de alerta para as condições de prevenção a incêndios em locais públicos. E há muito a ser feito. 

Um estudo recente do governo federal mostra, por exemplo, que, se um incêndio atingisse o Hospital Federal de Bonsucesso, no Rio, dificilmente os funcionários, pacientes e visitantes saberiam do fogo com antecedência, porque não há na unidade qualquer detector ou alerta de fumaça.  Mesmo se soubessem, também teriam dificuldades para evacuar o local, já que não há escadas pressurizadas ou elevadores à prova de fogo, e a escada do prédio dos ambulatórios, por exemplo, é estreita e não possui corrimão. Caso tentassem apagar as chamas, iriam se deparar ainda com hidrantes desativados e mangueiras danificadas. E não existem chuveiros automáticos, chamados de sprinklers.

Essa é a situação do maior hospital público do estado fluminense, se considerado o volume de atendimentos. A unidade é referência em serviços de média e alta complexidade, principalmente em cirurgias de cabeça e pescoço e transplante renal, além de ter emergência e ambulatório.

As consequências de um incêndio ali seriam iguais ou piores às do hospital particular Badim, na Tijuca, em que morreram 14 idosos desde a última quinta (12), a maioria por inalação da fumaça. 

As falhas de Bonsucesso são apontadas em um relatório do próprio governo federal, que no início do ano decidiu fazer uma reestruturação nos seis hospitais geridos pela União no Rio.

A avaliação foi feita por engenheiros de hospitais privados que estão ajudando na ação. Eles constataram que o sistema de prevenção e combate a incêndio é precário, que não existe um plano para isso e que o prédio não tem autorização do Corpo de Bombeiros - o que o órgão confirma.

E pior: os riscos de uma pane ali são altos, diz o documento. Os engenheiros enumeram, com fotografias, uma série de irregularidades que podem levar a um apagão elétrico, curto-circuito, morte de funcionários e até explosões.

Nessa lista está o mau estado de conservação de três geradores, justamente o equipamento onde começou o fogo no Badim. A chave que sincroniza esses aparelhos não tem sistema de proteção.

Há ainda dois transformadores que estavam superaquecidos, com “alto risco de explosão e inoperância total do sistema elétrico e risco de morte dos operadores”, e ao menos 13 quadros e disjuntores obsoletos e sem manutenção, além de alguns cabos expostos.

A situação do Hospital de Bonsucesso é reflexo de três crises simultâneas que atingem a saúde do Rio, tanto na rede federal quanto na municipal e na estadual. É o que Daniel Macedo, defensor público da União, chama de “a pior crise na saúde do estado desde a Constituição de 1988”.

Com base no relatório sobre o Hospital de Bonsucesso, o defensor pediu por ofício que Cristiane Rose Jourdan Gomes, diretora da unidade, explique o que tem sido feito para reduzir esses perigos.

O Ministério da Saúde afirmou ao jornal que a atual gestão vai solucionar os problemas definitivamente antes do fim do ano. Como medida de emergência, adquiriu um equipamento que liga e controla os geradores em caso de queda de energia e isolou a área próxima ao transformador e geradores. Também “posicionou a brigada de incêndio e dispositivos de combate a incêndio nas áreas afetadas” e agendou uma reunião com o comando do Corpo de Bombeiros para iniciar imediatamente a regularização e legalização do hospital.

A pasta informou ainda que um projeto de reforma da subestação elétrica da unidade deve começar a ser implantado em 40 dias e que o plano de recuperação dos hospitais federais prevê a liberação de R$ 120 milhões até 2020 para obras de infraestrutura.

O defensor da União também requisitou aos Bombeiros do Rio que, “diante da urgência e gravidade da situação”, faça uma vistoria em dez dias no hospital. O órgão disse à reportagem que “está dando andamento ao pedido” e ressaltou que a prevenção “é uma obrigação de todos”.

A corporação afirma que está dentro de seu escopo verificar dispositivos de segurança contra fogo e pânico, mas não as instalações elétricas, por exemplo, o que deve ser feito por um engenheiro contratado.