Live com intelectuais negros sofre ataque racista de hackers

Um grupo de estudo com intelectuais negros sofreu agressões racistas durante uma programação aberta. O ataque aconteceu na última quinta (23) na live organizada pela Revista África e Africanidades, que seria uma palestra virtual, pelo app Meet, com o tema "Intelectualidades Negras".

O evento, que começou por volta das 19h, teve o bate papo invadido e atacado de forma orquestrada por um grupo, com injúrias raciais, imagens obscenas e de cunho sexual. Devido ao ocorrido, tiveram que interromper a atividade em razão das ações dos criminosos. O ataque começou bem no início da palestra, por volta das 19:13h. 

Nos comentários, publicaram imagens da suástica e se declararam nazistas. Compartilharam ainda telas de memes racistas e homofóbicos. Imagens que vinculam a ideia de supremacia branca também estão no vídeo. O grupo atingindo acredita que sejam perfis falsos, já que imagens eram de mulheres, mas as vozes eram de homens.

A live foi organizada pela Revista África e Africandades, que vem se destacado na vida cultural e acadêmica brasileira, um dos poucos periódicos nacionais inteiramente dedicado a temas africanos, afro-brasileiros e afro-latinos que agrega conteúdos acadêmicos, de informação, entretenimento e subsídios para a prática pedagógica e pesquisas escolares da educação básica. O coletivo existe desde 2008, e atualmente é composto por oitenta pessoas, entre estudantes de graduação e pós-graduação, docentes da Educação Básica e superior, além de pesquisadores. Revista independente e sem o patrocínio de instituições públicas ou privadas. Publicam materiais científicos e pedagógicos em torno da luta antirracista. Atuam também com formações na área

Gravado e "printado", os responsáveis pela live estão tomando as medidas cabíveis do ponto de vista jurídico. Fizeram Boletim de Ocorrência (n.130-00470/2020) na 130ª Delegacia de Polícia, que fica em Quissamã, cidade do Estado do Rio, com o Inspetor Anderson Pinto Barros de Oliveira e Delegado Raul Gustavo Morgado.

Nágila Oliveira Dos Santos , editora da Revista África e Africanidades, acredita que o ataque foi uma provocação direcionada, já que parte dos comentários foram agressivos e de cunho sexual e estavam direcionados à diretora, que dirige um periódico científico de referência na temática étnico-racial. "A tentativa do ataque era de silenciamento do grupo como um todo, mas em especial de uma mulher negra", afirma com veemência Nágila.

O ataque da qual a Revista África e Africanidades foi vítima também explicita ainda mais o racismo estrutural e o racismo epistêmico que se manifesta de forma cotidiana no país dentro de um contexto social e político de acirramento do ódio contra a população negra no Brasil.

"É inadmissível esse tipo de comportamento, provoca danos irreversíveis, é preciso agir com rigor e combater. Não é de hoje que sofremos ataques deliberados de racista e nazista, com provocações e atos insanos. Que as autoridades tomem providências o quanto antes", atesta o Prof. Babalawô Ivanir dos Santos, - Pós- doutorando em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ) e ativista de direitos humanos, há mais de quatro décadas em prol das minorias, pela liberdade religiosa e contra o racismo.Sociedade

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NOTA DE REPÚDIO

A Revista África e Africanidades (RAA) através do GT Intelectuais Negros vem manifestar o seu repúdio em decorrência aos ataques sofridos na noite desta quinta-feira, 23 de julho de 2020, na qual durante uma programação aberta (live) aos leitores e amigos da revista fomos surpreendidos por um grupo (hackers) que ofendeu convidados e participantes com expressões racistas e imagens desagradáveis.

Ocorre que tais práticas, que já foram relatadas em outros espaços de debate acadêmico, não se coadunam com os valores desta equipe, mostrando apenas amplo desconhecimento da nossa luta, uma vez que atuamos em defesa da dignidade humana.

Essa ação criminosa nos revela que o ocorrido no virtual é apenas reflexo daquilo que ocorre cotidianamente em nosso país. Entretanto, não permitiremos que tais ações fiquem impunes, as devidas providências legais serão tomadas. Estamos atentos a expressões e atitudes desta natureza e não toleraremos em nenhuma hipótese tais práticas. Contudo, apesar da má intenção dos responsáveis pelo ataque, tal episódio contribui ainda mais para que possamos compreender que nosso papel é ocupar esses espaços e a partir deles contribuir com responsabilidade na luta antirracista.

Revista África e Africanidades

24 de julho de 2020.